Cover do episódio 109: Como o Scrum funcionava na prática — bem diferente do livro
#10928 de outubro, 20192 min leituraCarreira na PráticaS3 · 2018–2019

Como o Scrum funcionava na prática — bem diferente do livro

Li o Scrum Guide antes de entrar no time. A realidade era mais bagunçada, mais humana, e na minha opinião mais útil do que qualquer guia descreveu.

ScrumAgileTimesProcesso

Li o Scrum Guide antes de entrar no time da POA Software.

Sabia a teoria: sprints de duas semanas, backlog priorizado, daily de 15 minutos, retrospectiva, planning, review. Entrei confiante que ia funcionar exatamente assim.

Não funcionou exatamente assim.


O daily durava 30-40 minutos. A planning se estendia por 3 horas às vezes. O "backlog priorizado" tinha itens lá desde o trimestre anterior que ninguém conseguia justificar deletar mas também ninguém priorizava.

Por semanas achei que estávamos fazendo Scrum errado.

Aí percebi: o que importava não era a aderência ao ritual — era se os problemas que o Scrum tenta resolver estavam sendo resolvidos.


O que Scrum tenta resolver debaixo de toda a cerimônia: alinhamento (todo mundo sabe o que está sendo feito e por quê — a daily imperfeita de 35 minutos funcionava porque descobríamos bloqueios que ficariam escondidos por dias), visibilidade (stakeholders veem progresso sem interromper o time — o review informal no final da sprint tinha esse efeito), feedback loop curto (não construir coisa errada por meses — as sprints garantiam que se a direção estava errada, sabíamos em duas semanas), e melhoria contínua (a retrospectiva era o único momento formal onde o time parava para perguntar "como estamos trabalhando?").


O que aprendi que não está no Scrum Guide:

O daily só funciona se as pessoas dizem o que está bloqueando de verdade. Isso depende de confiança no time, não de ritual. Se existe medo de "parecer que não está avançando", as pessoas vão reportar que está tudo bem mesmo quando não está.

O planning só produz estimativas usáveis se quem vai fazer o trabalho está presente e participando da estimativa. Estimativa feita por gerente e jogada para o dev é ficção.

E a retrospectiva — o ritual mais ignorado de todos — é onde os times que realmente melhoram se diferem dos que ficam no mesmo padrão por anos.


Não sou adepto rígido de Scrum nem de qualquer metodologia. Mas o que esses rituais encapsulam — alinhamento, visibilidade, feedback curto, reflexão — são necessidades reais de qualquer time.

A pergunta não é "estamos fazendo Scrum certo?" A pergunta é "estamos nos comunicando? Estamos ajustando? Estamos entregando?"

Se sim, a metodologia está funcionando — mesmo que o daily dure 35 minutos.