
Construir em público sendo CLT — o que funciona, o que não funciona, o que tenho medo
Trabalhar em tempo integral numa empresa e construir produtos paralelos em público é possível. Mas tem fricções reais que ninguém comenta no LinkedIn.
Build in public é o conselho mais dado por pessoas que não têm CLT para pessoas que têm.
Não que seja errado. É que ignora a fricção real.
O que funciona:
Separar o que é público do que é proprietário. Tudo que eu construo com conhecimento que adquiri por conta própria, em tempo próprio, para problema que não compete com o empregador — é meu. Tudo que usa código, dados, ou conhecimento específico do emprego — não é.
Essa linha não é sempre óbvia. Quando fica turva, eu paro e penso antes de postar.
Compartilhar processo, não produto. "Estou construindo X e aprendi Y no processo" é diferente de "meu produto X tem feature Y". O primeiro é educacional e não depende do produto ter sucesso. O segundo cria pressão de manter o produto e a narrativa pública simultaneamente.
Criar em períodos fixos. Manhãs, fins de semana, janelas de almoço. Não "nas brechas do trabalho" — em tempo dedicado. Quando não tem tempo dedicado, não cria. Isso protege o trabalho e protege o projeto paralelo de parecer descuidado.
O que não funciona:
Tentar manter ritmo de criação de conteúdo de quem faz isso full-time. Uma newsletter por semana, vídeo por semana, posts diários, mais produto — não é sustentável com 40h semanais de trabalho sério. Escolha um ou dois formatos e mantenha eles.
Confundir visibilidade com tração. Postar no LinkedIn sobre o que você está construindo não é o mesmo que usuários usando o que você está construindo. São métricas diferentes. Entregue produto — depois fale sobre ele.
Começar múltiplos projetos simultaneamente "porque a IA acelera tudo". A IA acelera execução. Não multiplica atenção. Um projeto com tração real bate três projetos em andamento.
O que tenho medo:
Que o que eu construo publicamente seja interpretado como conflito de interesse com o emprego. Essa preocupação me faz ser conservador em certas escolhas de tema e de narrativa.
Não vou fingir que não existe. Existe. E a forma que encontrei de lidar é ser transparente sobre isso quando relevante, e não falar sobre o emprego em contextos onde não é necessário.
O que aprendi sobre a tensão:
Ela não vai embora. E não deveria. A tensão é o mecanismo que me força a ser intencional sobre o que compartilho, o que constrói e para quem.
CLT com side project não é o mesmo que solopreneur. As regras são diferentes, as restrições são reais, e fingir que não são cria problema.
Mas dentro dessas restrições, tem muito espaço para construir, compartilhar, e crescer. O espaço é menor do que o do solopreneur — e maior do que eu achava quando estava com medo de começar.
Essa semana: se você tem um projeto paralelo parado por "não tenho tempo" ou "não posso publicar por causa do trabalho" — qual dessas duas razões é real? Às vezes são as duas. Às vezes só uma. Vale separar.