Cover do episódio 89: O mês depois que eu pedi demissão
#08914 de julho, 20193 min leituraA Mente que ConstróiS4 · 2019–2020

O mês depois que eu pedi demissão

Pedi demissão em 2019. O mês seguinte foi diferente do que eu esperava — não foi alívio imediato. Foi uma fase estranha de vácuo, incerteza e descoberta sobre quem eu era fora daquele emprego.

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A maioria das histórias sobre pedir demissão têm um arco claro: pressão → decisão → alívio → novo começo.

A minha não foi assim.

Depois que pedi demissão, eu esperava sentir alívio imediato. Uma sensação de "finalmente". O que eu senti, nos primeiros dias, foi principalmente vácuo.


Seis anos num mesmo lugar criam uma identidade que você não percebe enquanto está construindo. Você sabe onde sentar, quem vai te responder rápido, qual processo funciona e qual é fachada, quais reuniões importam e quais são perda de tempo. Você tem contexto. Você tem pertencimento, mesmo que imperfeito.

Quando você sai, leva o conhecimento técnico. Mas deixa todo o contexto. E contexto é uma parte enorme da sensação de competência.

Nos primeiros dias fora, eu me senti menos capaz do que eu era. Não porque tinha perdido habilidades — porque tinha perdido o contexto em que essas habilidades faziam sentido. Era como saber jogar xadrez muito bem mas de repente estar num jogo diferente onde você não conhece as peças.


O burnout ainda estava presente. Pedir demissão foi necessário mas não foi suficiente para curar nada — foi só remover a fonte principal de desgaste. O esgotamento acumulado precisava de tempo para dissipar, e tempo não negocia.

Eu tentei acelerar isso. Tentei "aproveitar o tempo livre" para estudar coisas novas, para fazer projetos pessoais, para ser produtivo de uma forma que justificasse para mim mesmo aquele período. Não funcionou. Corpo em burnout não está disponível para produção acelerada. Estava disponível para recuperação, e recuperação tem o ritmo dela.

A lição mais difícil daquele mês foi aceitar que a recuperação não tem prazo. Que não tem um dia em que você acorda e está curado. Que o processo é gradual, não linear, e que forçar o ritmo prolonga em vez de encurtar.


Tem uma coisa que o burnout faz que eu não esperava: ele distorce a percepção de quanto você vale.

Quando você está exausto, incapaz de produzir no seu padrão, achando difícil coisas que antes eram fáceis — é natural concluir que você é menos capaz do que era. Que aquele brilho que você tinha foi embora. Que você ficou pra trás enquanto o mundo avançou.

Isso é a doença falando, não a realidade.

Descobri isso de forma gradual, nos meses seguintes, quando a recuperação começou a se mostrar. As habilidades não tinham ido a lugar nenhum. O que tinha ficado temporariamente indisponível começou a retornar — o prazer de resolver um problema difícil, a capacidade de concentração, a curiosidade que me fez entrar em tecnologia no começo.

Eram as mesmas habilidades de sempre. Estavam esperando o sistema se recuperar para se manifestar de novo.


O mês depois que pedi demissão me ensinou algumas coisas que não esperava precisar aprender:

Que identidade profissional e identidade pessoal são coisas diferentes, e que confundi-las tem custo. Que recuperação genuína é trabalho — não passivo, não fácil, mas diferente do trabalho de produzir.

E talvez mais importante: que o vácuo entre um ciclo e outro não é um problema a ser resolvido rapidamente. É um espaço necessário. Sem ele, você entra no próximo ciclo carregando o peso do anterior.


Essa semana: se você está em transição — de emprego, de fase, de contexto — repare no impulso de preencher o vácuo rapidamente. Às vezes o mais útil é deixar o vácuo existir por um pouco, em vez de correr para substituir o que acabou.