Cover do episódio 43: O projeto de pesquisa que eu achei que ia ser trabalho de verdade — e o que faltou
#0439 de abril, 20183 min leituraUniversidade e MercadoS3 · 2018–2019

O projeto de pesquisa que eu achei que ia ser trabalho de verdade — e o que faltou

Na faculdade, trabalhei meses num sistema que resolvia um problema real. Mas quando tentei mostrar para alguém fora da academia, percebi que tinha construído algo que só fazia sentido dentro dela.

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Passei cinco meses construindo um sistema de análise de dados para pesquisa.

Era bom. Funcionava. Resolvia um problema que eu tinha. Quando apresentei para o professor, ele ficou satisfeito. Quando tentei mostrar para alguém fora da academia — um ex-colega que trabalhava em empresa — ele perguntou: "mas quem iria usar isso?"

Não soube responder.


O sistema tinha uma interface de linha de comando, documentação em LaTeX, e output em formato que fazia sentido para quem ia ler o paper. Nenhuma dessas coisas fazia sentido para quem não estava dentro do contexto acadêmico específico.

Isso não é crítica ao projeto — era adequado para o que era. Mas revelou um gap que eu não tinha percebido: a habilidade de construir algo funcionando é diferente da habilidade de identificar para quem aquilo funciona.

Em pesquisa, o "usuário" implícito é o professor, a banca, os revisores do paper. São pessoas que compartilham do mesmo contexto, falam a mesma língua técnica, e avaliam por critérios estabelecidos pela academia. Quando você exporta o que construiu para fora desse contexto, o trabalho não se traduz automaticamente.


O que a academia ensina bem:

Rigor. Você aprende a não afirmar o que não pode provar. Aprende a citar fontes, a questionar metodologia, a separar o que foi observado do que foi inferido. Esse músculo é útil fora da academia — especialmente em engenharia, onde afirmações sobre performance e confiabilidade precisam ser testadas, não assumidas.

Pesquisa bibliográfica. Antes de construir qualquer coisa, você aprende a olhar o que já existe. Em empresa, esse hábito economiza semanas de trabalho reinventando o que alguém já documentou.

Trabalho com incerteza. Pesquisa não tem resposta certa no início. Você formula hipótese, testa, revisa, reformula. Isso é o mesmo loop de um bom engineering process.


O que a academia não ensina:

Como descobrir o que vale construir. Em pesquisa, o tema vem do professor, da literatura, do financiamento. Em mercado, o tema vem de quem vai usar o que você construiu.

Como validar antes de construir. No projeto acadêmico, você constrói, apresenta, recebe feedback. O feedback vem depois que você investiu meses. Em produto, você tenta validar a hipótese antes de investir o tempo.

Como lidar com velocidade. Na academia existe prazo de entrega, mas o dia a dia é mais fluido. Em empresa, tem deadline de sprint, cliente esperando, bug em produção agora.


Esses gaps não eram defeitos do ambiente acadêmico. Eram características dele. Bom para desenvolver rigor analítico e tolerância à incerteza. Empresa é boa para desenvolver velocidade e orientação ao usuário.

O que eu precisava era entender qual ambiente eu estava, o que ele desenvolvia bem em mim, e o que eu ia precisar construir sozinho quando saísse.

A maioria das pessoas reclama que a academia não prepara para o mercado. Isso é verdade. Mas o mercado também não prepara para o pensamento rigoroso que a academia exige. São ferramentas diferentes para problemas diferentes.

Essa semana: em qual ambiente você está agora — e o que ele não vai te ensinar que você vai precisar buscar por conta própria?