Cover do episódio 61: O que é burnout antes de você saber que está com burnout
#06111 de fevereiro, 20194 min leituraA Mente que ConstróiS4 · 2019–2020

O que é burnout antes de você saber que está com burnout

Eu não sabia que estava com burnout. Achei que era fraqueza, falta de vontade, preguiça. Levou meses para eu entender o que estava acontecendo — e esse atraso no diagnóstico custou caro.

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Eu não acordei um dia e pensei "estou com burnout". Isso não acontece assim.

O que acontece é que você começa a achar que o problema é você. Que você ficou burro. Que você perdeu o interesse porque é irresponsável. Que todo mundo aguenta e você não está conseguindo porque tem algum defeito de caráter que precisa ser corrigido.

Eu fiquei assim por meses. Meses achando que o problema era uma falha minha, não uma resposta natural do meu sistema nervoso a um ambiente que estava me destruindo devagar.


O burnout não chega com uma placa. Ele chega com sintomas que parecem outras coisas.

Chega como cansaço. "Estou cansado, preciso dormir mais." Você dorme. Não resolve. "Então é que eu preciso de férias." Você tira uma semana. Volta pior.

Chega como irritabilidade. Você que sempre foi paciente começa a perder a paciência com coisas pequenas. Um deploy que atrasa, uma reunião que podia ser email, um colega que pergunta a mesma coisa pela terceira vez. Você se irrita e depois se culpa por ser irritado.

Chega como perda de motivação. Projetos que antes te animavam agora parecem uma obrigação sem sentido. Você vai trabalhar, faz o mínimo, volta pra casa, não consegue se desligar, mas também não consegue se engajar.

Chega como vazio. Não tristeza, não desespero — vazio. Uma ausência de sentido que você não sabe nomear.


No meu caso, a Oi Telecomunicações estava em processo de recuperação judicial. O ambiente estava tenso, havia muita incerteza, os projetos mudavam de direção frequentemente, havia pressão com pouco recurso e muita política. Não era um ambiente ruim por malícia — era um ambiente que estava ele mesmo sob enorme pressão. Mas isso não mudava o efeito que estava tendo em mim.

Eu estava lá há seis anos. Comecei estagiário. Cresci. Aprendi muito. Mas seis anos nesse ambiente, com esse tipo de pressão, sem conseguir ver para onde eu estava indo — tinha um custo que eu não estava medindo.

O custo se apresentou em 2019.

Comecei a ter dificuldade de concentração. Não conseguia entrar em flow, aquele estado em que você fica absorto no problema e perde a noção do tempo. Antes era natural. Agora parecia impossível. Eu tentava codar e ficava olhando para a tela sem conseguir avançar.

Pensei que fosse distração. Bloqueei redes sociais. Não mudou nada.


O que me ajudou a entender o que estava acontecendo foi ler sobre o assunto quase por acidente — um artigo que alguém compartilhou num grupo, sobre como burnout é diferente de estresse comum. Estresse é tensão que alivia quando a fonte desaparece. Burnout é quando a tensão foi tanta por tanto tempo que o sistema que processa tensão parou de funcionar.

Não é falta de vontade. É esgotamento de um sistema biológico.

Isso não me curou na hora, mas me tirou da posição de me culpar. E isso foi importante. Quando você acha que o problema é fraqueza de caráter, você tenta se forçar mais. E se forçar mais numa pessoa em burnout é como tentar resolver uma fratura empurrando mais peso na perna quebrada.


O que eu sei agora, olhando para trás:

Os sinais estavam lá meses antes. Eu os ignorei porque não sabia o que eram, e porque nossa cultura de trabalho não cria espaço para nomear essas coisas. A narrativa dominante é: trabalho duro é virtude, cansaço é sinal de compromisso, parar é sinal de fraqueza.

Essa narrativa é mentira. E é uma mentira cara.

O corpo sempre mantém o placar. Você pode ignorar os sinais por um tempo. Mas eles vão se apresentar de um jeito ou de outro — como dificuldade de concentração, como problemas de saúde, como decisões ruins, como relacionamentos deteriorados. A conta chega. A única questão é quando e em qual moeda.


Essa semana: pense nos últimos três meses. Teve algum sintoma recorrente que você está chamando de outra coisa — cansaço, preguiça, falta de foco? Não para se diagnosticar, mas para pelo menos nomear o que está acontecendo. Nomear é o primeiro passo para entender.