
O que eu faria diferente se começasse hoje — carta para o dev de 2019
Se eu pudesse mandar uma carta para mim mesmo em 2019 — saindo do burnout, entrando numa software house, sem saber onde ia chegar — o que eu diria?
- Eu tinha saído de uma empresa de telco depois de seis anos. Tinha passado por burnout. Estava começando numa software house sem saber o que era arquitetura de software, sem ter visto Kubernetes, sem ter ouvido falar de platform engineering.
Em 2025, trabalho numa empresa global, opero sistemas que processam transações financeiras em escala, e construo produtos paralelos que antes pareceriam impossíveis.
Se eu pudesse mandar uma carta para aquele eu de 2019, o que diria?
Sobre o burnout:
Você vai sair dele. E vai sair mais inteiro do que entrou, não mais quebrado. O burnout não é o fim de nada — é o sinal de que você estava operando com modelo mental errado sobre trabalho, sobre você, e sobre o que é sustentável.
O que você vai aprender: que velocidade não é virtude em si. Que "dar o máximo" sem direção é desperdício de energia. Que parar, quando necessário, não é fraqueza — é o que permite continuar.
Sobre carreira:
Você vai se preocupar muito se está "no caminho certo". Não está. Ninguém está. Existem caminhos, não o caminho. O que você pode controlar é a qualidade do que você aprende e a honestidade com que você avalia se está crescendo.
Fundamentos importam mais do que você imagina agora. Você vai querer pular para as tecnologias novas — e algumas vão importar. Mas a pessoa que entende profundamente redes, sistemas operacionais, banco de dados e comunicação distribuída vai continuar sendo valiosa independente de qual framework está em hype.
Sobre a empresa global:
Você vai trabalhar em inglês. Não vai ser perfeito no começo — e não precisa ser. O que vai importar não é sotaque ou gramática impecável, mas clareza e honestidade intelectual. Dizer "não entendi, pode repetir?" vai salvar mais reuniões do que fingir que entendeu.
A diferença entre empresa grande e pequena não é só escala. É a quantidade de contexto implícito que você precisa navegar para fazer qualquer coisa. Desenvolva paciência com esse contexto. Ele não é burocracia sem sentido — é história sedimentada de decisões que fizeram sentido em algum momento.
Sobre IA:
Nos últimos dois anos da sua trajetória, vai aparecer uma mudança no trabalho de engenharia que vai parecer abrupta mas na verdade foi gradual. Ferramentas de IA vão transformar o que é possível fazer sozinho.
Não entre em pânico nem em euforia. As habilidades que compõem — julgamento, comunicação, leitura de sistema, tomada de decisão com incerteza — continuam sendo suas. O que vai mudar é o que você consegue atacar com elas.
O que mais importa:
Em 2019 você está saindo do burnout e com medo de não ser bom o suficiente. Em 2025, vai olhar para trás e perceber que o crescimento não foi linear, não foi óbvio enquanto acontecia, e não foi planejado da forma que você imagina que precisa planejar.
O que funcionou foi continuar curioso, continuar honesto sobre o que não sabia, e continuar construindo — mesmo quando não sabia onde ia chegar.
Você vai chegar. Não onde imaginava. Melhor.
Essa semana: escreva uma linha sobre onde você estava há 5 anos e uma linha sobre onde está agora. A diferença nessa linha é o que você construiu. Não subestime.