Cover do episódio 46: O que projetos de inovação universitária ensinam que o mercado não ensina
#04625 de junho, 20183 min leituraUniversidade e MercadoS3 · 2018–2019

O que projetos de inovação universitária ensinam que o mercado não ensina

Participei de projetos de inovação na universidade — pitch de ideia, prova de conceito, apresentação para banca. É diferente de entregar para cliente. Os dois ensinam coisas que o outro não ensina.

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No mercado, inovação tem custo e tem prazo.

Quando uma empresa quer inovar, ela está apostando tempo e dinheiro em algo que pode não funcionar. Risco é real. O processo precisa de justificativa. "Temos uma ideia interessante" não basta — você precisa de "temos evidência de que vale a pena explorar".

Na universidade, a dinâmica era diferente.


Projetos de inovação universitária têm uma característica valiosa e uma armadilha.

A característica valiosa: espaço para explorar sem custo direto de oportunidade. Você pode trabalhar numa ideia que não vai a lugar nenhum e o custo é tempo — sem cliente esperando, sem contrato em risco, sem budget esgotando.

A armadilha: a ausência de custo real cria condições que não existem no mercado. É fácil manter projeto vivo que nunca funcionaria em contexto com restrição orçamentária. É fácil otimizar para apresentação em vez de para produto.


O pitch universitário é exercício com lógica própria.

Você aprende a articular problema, solução, impacto potencial. Aprende a antecipar objeção. Aprende a comunicar complexidade técnica para banca que pode não ter o contexto que você tem.

Isso é habilidade real — e habilidade que o trabalho operacional não exercita da mesma forma. Em IT support, o que você faz é claro. No pitch, você precisa convencer alguém de que o que você quer fazer vale a pena.

Mas há uma diferença entre convencer banca universitária e convencer cliente ou investidor: a banca universitária avalia potencial; o cliente paga por resultado.


O que eu aprendi especificamente:

Problema mal definido é origem de solução irrelevante. O projeto que parecia interessante mas que, quando você tentava explicar para alguém fora da academia, encontrava o olhar vazio — geralmente o problema era que o problema estava mal definido. Ou que o problema só existia dentro do contexto acadêmico.

Prova de conceito não é produto. PoC prova que algo é tecnicamente possível. Não prova que alguém vai querer pagar, usar, ou que vai funcionar em escala. A distância entre "funciona no laboratório" e "funciona para usuário real" é grande. Aprendi isso quando tentei mostrar o que tinha construído para alguém de fora — e ele precisou de 20 minutos de contexto para entender por que era relevante.

Documentação de processo é artefato de aprendizado. Em projeto universitário, documentar como você chegou no resultado é parte do trabalho. No mercado, o resultado é o que importa. Mas o hábito de registrar processo — hipóteses, experimentos, o que não funcionou — foi útil depois.


O que o mercado depois me ensinou que a universidade não havia ensinado: cliente não compra solução elegante. Cliente compra resultado específico para problema específico, com custo que cabe no orçamento, entregue no prazo.

Elegância é consequência bem-vinda, nunca objetivo.

A universidade me deu liberdade para explorar. O mercado me deu os critérios para escolher onde explorar.

Os dois juntos fazem sentido. Cada um sozinho, menos.

Essa semana: qual ideia você está trabalhando que soa bem em apresentação mas que você nunca tentou validar com alguém que teria que pagar por ela?