
Por que eu comecei a olhar para vagas internacionais — e o que me assustava
Não foi ambição. Foi uma percepção gradual de que o tipo de problema que queria resolver estava em empresas que eu não conseguia acessar pelo mercado local.
Não acordei um dia decidido a trabalhar para uma empresa internacional. A ideia foi chegando devagar, por eliminação.
Estava em 2022, trabalhando na mesma software house há três anos, aprendendo muito, mas sentindo que os tipos de problema que me interessavam — sistemas de escala real, plataforma para times grandes, infraestrutura que processa volumes que poucos sistemas brasileiros processam — existiam principalmente em empresas que não tinham presença forte no Brasil.
O gatilho foi uma conversa com um colega que tinha acabado de assinar com uma empresa europeia, trabalhando remotamente do Brasil. Ele descreveu o processo seletivo, o tipo de trabalho, e a compensação.
Não foi a compensação que me impactou primeiro. Foi a escala dos problemas. "Eles têm um time só para fazer o API gateway deles escalar." Um time. Só para API gateway. Esse era o tipo de especialização que eu queria desenvolver.
O que me assustava era uma lista longa.
Inglês. Eu lia bem, mas conversação era insegura. Uma entrevista técnica é difícil o suficiente em português — fazer em inglês parecia impossível.
Competição. Estaria concorrendo com engenheiros do mundo inteiro, não só do Brasil. Assumia que eles eram melhores.
O processo seletivo americano. Leetcode. System design. Behavioral interviews. Eu tinha ouvido histórias e parecia um ritual que requeria preparação específica de meses.
Fraude do impostor: "e se eu passar no processo mas não conseguir entregar o que eles esperam?"
O que fiz para endereçar cada um:
Para o inglês: comecei aulas de conversação duas vezes por semana. Sem prazo de "estarei pronto". Foco em melhorar continuamente enquanto construía confiança.
Para a competição: parei de assumir que engenheiros de outros países eram automaticamente melhores. Há engenheiros brilhantes e medíocres em todo lugar. A questão não é onde você nasceu — é o que você construiu e como você pensa.
Para o processo seletivo: comecei a estudar system design de forma estruturada. Não apenas ler — mas pratiquei desenhando sistemas em voz alta, como faria numa entrevista. Fiz mock interviews com colegas.
Para o impostor: decidi separar "passar na seleção" de "performar bem no trabalho". Processos seletivos têm erros em ambas direções. Se eu fosse contratado, era porque eles tinham evidências suficientes. Minha tarefa era aprender rápido e contribuir — não provar que a decisão deles foi correta antes de começar.
Havia também coisas que eu não antecipava:
Que o mercado remote-first tinha crescido dramaticamente depois da COVID. Empresas que nunca tinham contratado fora dos Estados Unidos estavam abertas a isso agora. A janela era real.
Que a experiência em POA Software — construindo sistemas para múltiplos clientes, contextos variados, pressões reais de prazo e qualidade — tinha desenvolvido habilidades que eram diretamente transferíveis e valorizadas.
Que "anos de experiência" num currículo brasileiro muitas vezes subestimava a profundidade real do que havia sido feito. Eu tinha resolvido problemas em produção que muitos candidatos com currículo mais longo nunca tinham enfrentado.
No final de 2022, comecei a me candidatar. Com medo, com inglês imperfeito, sem certeza do resultado.
A alternativa era ficar com as certezas que já tinha — que eram confortáveis, mas que não iam para onde eu queria ir.
Essa semana: se você tem curiosidade sobre trabalho internacional mas sente que "ainda não está pronto" — o que especificamente faltaria para você estar pronto? Lista isso concretamente. Alguns itens são reais e endereçáveis. Outros são variantes do impostor, e a única forma de descobrir qual é qual é começar o processo.