Cover do episódio 73: Por que eu saí de uma empresa de telco depois de 6 anos
#0738 de abril, 20194 min leituraCarreira na PráticaS4 · 2019–2020

Por que eu saí de uma empresa de telco depois de 6 anos

Seis anos no mesmo lugar. Cresci lá, aprendi lá, e ainda assim pedi demissão. Não foi uma decisão fácil — e foi a decisão certa.

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Seis anos é muito tempo.

Comecei estagiário. Aprendi a versionar código de verdade lá. Aprendi o que é um sistema legado de verdade — não aquele legado de "foi escrito há três anos", mas legado de "foi escrito antes de você nascer e ainda está em produção". Aprendi a trabalhar em time, a lidar com política corporativa, a sobreviver em ambiente de incerteza.

A Oi foi minha escola. E em 2019, eu pedi demissão.


A decisão não veio de um momento. Veio de uma acumulação.

Primeiro, o contexto externo: a empresa estava em recuperação judicial há alguns anos. Isso criava um ambiente de incerteza constante — projetos cancelados no meio, times desfeitos, prioridades mudando. Não era culpa de ninguém em particular. Era a consequência natural de uma empresa tentando se reorganizar sob enorme pressão financeira.

Segundo, o contexto interno meu: eu estava com burnout. Não sabia nomear assim ainda, mas estava. Cansaço que não passava, dificuldade de concentração, sensação de estar fazendo esforço enorme para produzir pouco.

E terceiro — o que mais pesou na decisão — eu não conseguia ver para onde eu estava indo. Não no sentido de carreira planejada em cinco anos. No sentido mais básico: o que eu ia aprender nos próximos dois anos que fosse diferente do que eu aprendi nos últimos dois? A resposta honesta era: provavelmente nada novo.


Existe um princípio que eu aprendi depois, mas que já estava operando em mim de forma instintiva: o custo de oportunidade de ficar.

Ficar num lugar que não te cresce mais não é neutro. É ativo. Cada mês que você fica num ambiente de estagnação é um mês que você não está num ambiente de crescimento. E tempo é o único recurso que você não consegue recuperar.

Isso ficou claro para mim quando comecei a conversar com pessoas de fora. Desenvolvedores que trabalhavam em outras empresas, em outros contextos, estavam falando de coisas que eu nunca tinha tocado — metodologias, ferramentas, arquiteturas, práticas de engenharia. Não porque eram mais inteligentes. Porque tinham sido expostos a ambientes diferentes.

Exposição é subestimada. O que você aprende depende muito do ambiente onde você está. E se o ambiente parou de ter coisas novas para te ensinar, a velocidade de aprendizado cai independente do seu esforço.


Tem uma narrativa comum de que sair de um emprego é "correr dos problemas". Que a pessoa madura fica e resolve. Que mudar de emprego com frequência é sinal de instabilidade.

Discordo. Às vezes o problema não é algo que você pode resolver — é estrutural, é do ambiente, é da fase da empresa. Ficar num ambiente que te esgota não é resiliência. É resistência sem propósito.

A pergunta certa não é "devo ficar e resolver?" A pergunta certa é "o que eu vou aprender se ficar, e o que eu vou aprender se sair?"


Sobre os seis anos: não me arrependo. Aprendi coisas que não aprenderia em outro lugar. Sistemas legados me ensinaram sobre complexidade real. Ambiente político me ensinou a navegar em organizações grandes. Incerteza me ensinou a trabalhar sem roadmap claro.

Mas eu precisava sair antes de gastar mais dois anos repetindo o que eu já sabia.

A demissão foi assustadora. Eu tinha estabilidade financeira lá, tinha relacionamentos, tinha conhecia os sistemas, sabia as regras não escritas. Sair significa começar de novo em tudo isso.

Mas começar de novo, descobri depois, também é uma forma de crescimento. Você percebe que as habilidades que desenvolveu são portáteis — você as carrega. O que você deixa para trás é o contexto específico, não a competência.


Essa semana: se você está num emprego há mais de dois anos, faça uma pergunta honesta — o que você aprendeu nos últimos seis meses que era novo? Se a resposta for "basicamente nada", vale refletir se é o ambiente que parou ou se você parou de buscar dentro dele. As duas têm soluções diferentes.