
Por que saí da Oi para virar software engineer — e o que a rede me ensinou
Passei 4 anos configurando redes na Oi Telecomunicações antes de escrever minha primeira linha de código profissional. Não foi desperdício. Foi o melhor curso de debugging que eu poderia ter feito.
Eu fazia suporte técnico na Oi Telecomunicações.
Não era glamouroso. Era ADSL que caia, roteador que não roteava, empresa de médio porte com Active Directory travado e um funcionário de TI — eu — que precisava resolver tudo antes do expediente acabar.
Fiz isso por 4 anos.
Quando decidi mudar para software engineering em 2019, muita gente achou estranho. "Mas você já tinha uma área." Verdade. Só que eu olhava para o que os desenvolvedores faziam e pensava: isso é o que eu quero estar construindo, não só mantendo.
O que ninguém me disse é que esses 4 anos de rede iam ser a base de tudo.
Quando você vai até a empresa de um cliente consertar a intranet deles, você aprende uma coisa rápido: o problema raramente é onde você pensa que é.
O ticket dizia "internet lenta". Cheguei lá, olhei o switch. Normal. Olhei o roteador. Normal. Testei o cabo. Normal. Passei uma hora achando que era o provedor. Era o GPO do Active Directory bloqueando porta de atualização do antivírus, que tava consumindo a banda toda.
Isso é debugging. Só que com hardware, com pressão de cliente na sua frente, e sem Stack Overflow.
Depois que você debugou isso umas 30 vezes em cenários diferentes, debugar um bug de software fica mais fácil. Você já desenvolveu o instinto de não confiar no sintoma. Vai na causa.
Configurar VPN corporativa para empresa cliente te dá entendimento de rede no sentido físico: esse pacote saiu daqui, passou por aqui, chegou lá, e se não chegou, aqui estão os 5 lugares onde pode ter travado.
Isso me deu vantagem quando comecei com APIs. Enquanto a maioria dos devs júnior tratava HTTP como mágica, eu sabia o que estava acontecendo na camada de rede. Sabia por que timeout é diferente de connection refused. Sabia por que 502 geralmente não é culpa do seu código.
Por que mudei? Tem a resposta bonita e a honesta.
A bonita: queria construir coisas, não só manter. A honesta: olhava pro teto de carreira em suporte e via que era baixo. Redes e infraestrutura tinham mercado, mas o salário estagnou cedo. Queria mais. E desenvolvimento de software, em 2019, era claramente onde o crescimento estava.
As duas são verdade ao mesmo tempo. Pode parar de sentir que precisa ter um motivo "puro" para trocar de área.
O que carrego da Oi até hoje: conforto com ambiguidade. Lá você chegava num problema que ninguém documentou, com equipamento sem tutorial em português, e precisava resolver em 2 horas com cliente esperando.
Software engineering tem muita documentação comparado a campo. Mas tem ambiguidade nas especificações, nos requisitos, no comportamento esperado de sistemas. O músculo de operar nessa incerteza — esse eu desenvolvi na Oi.
Essa semana: se você está em transição de carreira, escreve o que mais aprendeu na área anterior. Não os títulos — as habilidades. Pensamento sistêmico, resolução sob pressão, cliente, dados bagunçados. Depois pergunta onde cada uma aparece em software engineering. Vai se surpreender.