Cover do episódio 92: Quando percebi que estava em burnout — e o que fiz
#09229 de julho, 20193 min leituraA Mente que ConstróiS4 · 2019–2020

Quando percebi que estava em burnout — e o que fiz

Em 2019 eu estava aprendendo uma nova carreira, entregando para clientes, estudando à noite, e achando que aguentar mais era a resposta. Não era.

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O sinal que eu ignorei primeiro foi acordar cansado.

Não o cansaço de quem dormiu mal uma noite. O tipo que não passa com sono. Você dorme 8 horas e acorda com a sensação de que o dia já custou algo antes de começar.

Ignorei por semanas. "É fase. Tô em transição de carreira, é normal estar pesado."


O segundo sinal foi perder interesse nas coisas que eu gostava.

Homelab parado. Livros na mesa sem abrir. Projetos pessoais que eu tinha começado animado estavam lá, sem movimento.

Interpretei como falta de disciplina. Tentei me forçar. Não funcionou. Forçar algo quando você está sem reserva é como tentar sacar de conta zerada — a conta não fica negativa, você simplesmente não consegue.


O terceiro sinal foi o que me fez parar.

Comecei a cometer erros simples em código que eu sabia fazer. Não bugs complexos — erros de digitação, lógica óbvia errada, coisas que eu teria visto em qualquer dia normal. Não estava vendo.

Aí ficou claro. Não era preguiça. Não era falta de café. Algo tinha esgotado.


O que eu fiz

Parei de estudar à noite. Completamente. Por três semanas.

Parecia abandono. Na minha cabeça na época, parar de estudar era cair para trás, perder terreno, deixar de crescer. Mas continuar esgotado não é crescer — é erosão lenta.

Voltei a ler. Não técnico — ficção, filosofia, qualquer coisa que não exigisse que eu produzisse algo em troca. Leitura como descanso, não como input para projeto.

E comecei a escrever. Não posts, não documentação — notas. O que estava acontecendo, o que estava aprendendo, o que estava sentindo no processo de mudar de carreira aos 20 e poucos anos com tudo novo ao mesmo tempo.

Escrever sobre as coisas ajudou a organizar o que estava confuso. Não resolveu tudo, mas tirou parte do peso do inside para fora, onde dava para olhar.


O que aprendi que não estava em nenhum livro de produtividade

Produtividade tem limite físico. Você não pode otimizar saída quando o sistema que gera saída está danificado.

Tinha lido sobre deep work, sobre pomodoro, sobre habit stacking. Nada disso funciona quando você está em burnout porque essas técnicas assumem que o motor está funcionando. Elas não consertam o motor.

O que conserta: descanso real, não "descanso produtivo". Não há versão útil de recarregar enquanto você ainda está tentando produzir.


Por que falo disso

Porque vi muitos devs repetindo o padrão em 2019 e vejo até hoje.

A narrativa de "trabalha enquanto eles dormem" é real e ao mesmo tempo perigosa. Ela não conta o custo. E o custo existe — às vezes você paga rapidamente com burnout, às vezes você paga devagar com código ruim, decisões ruins, e uma versão esmaecida de você mesmo.

O que eu queria ter ouvido em 2019: parar não é perder. Às vezes parar é o único jeito de conseguir continuar.

Essa semana: se você está acordando cansado todo dia, perdendo interesse nas coisas que gostava, ou cometendo erros simples com frequência — para um momento. Não para desistir. Para checar se o motor ainda tem combustível.