Cover do episódio 85: Terminar a faculdade quando você já está com burnout
#08517 de junho, 20194 min leituraUniversidade e MercadoS4 · 2019–2020

Terminar a faculdade quando você já está com burnout

Concluir o TCC e as últimas matérias enquanto pedia demissão e ainda não tinha me recuperado do burnout. O que aprendi sobre fazer o suficiente quando você não tem mais do que o suficiente.

UniversidadeBurnoutTCCConclusão

Eu terminei a faculdade com burnout. Não é uma história de superação gloriosa — é uma história de fazer o suficiente quando você tem muito pouco.

Em 2019, as coisas se acumularam de um jeito que não planejei: estava com burnout, havia pedido demissão da Oi, estava começando em um novo emprego, e ainda precisava terminar as últimas matérias e entregar o TCC. Tudo ao mesmo tempo.


Quem passa por burnout sabe que o recurso mais afetado é a capacidade cognitiva. Não é só cansaço físico. É dificuldade de concentrar, de entrar em flow, de manter pensamento sustentado em algo complexo por mais de alguns minutos.

Escrever um TCC requer exatamente o oposto disso. Exige foco profundo, pensamento estruturado, capacidade de manter um argumento longo e coerente. Exige que você consiga ficar com um problema difícil por horas.

Eu não tinha isso disponível.


O que aprendi nesse período é algo que ninguém ensina explicitamente: o conceito de fazer o suficiente.

A mentalidade de excelência que a maioria dos ambientes de tecnologia promove é boa em condições normais. Mas em condições de recurso reduzido — energia reduzida, capacidade cognitiva reduzida, tempo reduzido — tentar aplicar padrão de excelência em tudo é uma receita para não terminar nada.

Tive que fazer escolhas explícitas. O TCC não ia ser o melhor que eu poderia ter feito em condições normais. Ia ser o melhor que eu conseguia fazer naquelas condições. Suficiente para passar, suficiente para ter o diploma, suficiente para encerrar aquele ciclo.

Isso foi uma decisão consciente, não uma rendição. A diferença importa.


A faculdade, nesse contexto, tinha se tornado um item de checklist mais do que uma experiência de aprendizado. E tudo bem. Contextos diferentes pedem postura diferente com a mesma coisa.

Quando entrei na faculdade, estava lá para aprender. Nas últimas semanas, estava lá para terminar. Não sinto que traí algo — sinto que fui realista sobre o que estava possível e fiz o que precisava ser feito dentro das restrições que eu tinha.

O diploma era um pré-requisito para algumas coisas que eu queria fazer depois. Então ele tinha valor instrumental, mesmo que o processo de consegui-lo naquele momento não tivesse muito valor intelectual.


Tem uma pressão enorme em ambientes acadêmicos — e de tecnologia também — de que você precisa sempre estar no seu melhor. Que entregar menos do que seu potencial máximo é fracasso.

Isso é falso, e é nocivo.

Seu melhor em condições normais e seu melhor em condições adversas são coisas diferentes. Cobrar do segundo o padrão do primeiro é injusto e contraproducente. Uma pessoa doente que trabalha é uma pessoa doente que trabalha. Não é uma pessoa saudável que poderia fazer mais.

Isso não é baixar o padrão permanentemente. É reconhecer que padrões precisam ser calibrados para as condições reais, não para as condições ideais.


O TCC foi entregue. Apresentei, defendi, passei. Não foi o trabalho mais sofisticado que eu já produzi. Mas foi o trabalho que eu tinha capacidade de produzir naquele momento, entregue dentro do prazo, com o resultado necessário.

Considero isso uma vitória. Não uma vitória dramática — uma vitória quieta. Do tipo que não aparece em post de LinkedIn mas que importa quando você olha para trás.

Encerrar ciclos conta. Mesmo quando você os encerra com menos fanfarra do que planejava. Um ciclo encerrado abre espaço para o próximo começar.


Essa semana: você tem alguma coisa em andamento que está travada porque você está esperando ter as condições ideais para dar o seu melhor? Às vezes o melhor movimento é decidir conscientemente o que é "suficiente" para aquele contexto e fazer isso, em vez de não fazer nada esperando as condições melhorarem.