Cover do episódio 67: Trabalhar e estudar ao mesmo tempo: o que aprendi tentando fazer os dois
#06711 de março, 20193 min leituraA Mente que ConstróiS3 · 2018–2019

Trabalhar e estudar ao mesmo tempo: o que aprendi tentando fazer os dois

Em algum ponto de 2019, voltei a trabalhar enquanto ainda estava na faculdade. Os dois juntos funcionam — mas não da forma que você imagina. O que consegui e o que tive que abrir mão.

CarreiraGestão de EnergiaUniversidadeTrabalho

No começo, pareceu que dava para fazer os dois.

Trabalho de manhã, aula à tarde, estudo à noite. Na teoria, sobrava tempo. Na prática, o que não estava no calendário era energia — e energia é o recurso que calendário não mostra.


A diferença entre gestão de tempo e gestão de energia não era conceito que eu tinha antes de tentar trabalhar e estudar simultaneamente.

Gestão de tempo: você distribui horas disponíveis entre atividades. Parece que se você tem 16 horas acordado e usa 8 trabalhando e 4 estudando, sobram 4 livres.

Gestão de energia: horas são o container, energia é o conteúdo. Oito horas de trabalho cognitivo intenso não deixam a mesma energia que oito horas de trabalho físico. Quatro horas de estudo às 21h depois de um dia cheio não são as mesmas quatro horas que às 9h.

Aprendi isso depois que comecei a notar que as horas de estudo existiam no calendário, mas o aprendizado não estava acontecendo.


O que funcionou:

Delimitar os domínios. Trabalho é trabalho, estudo é estudo. Misturar — estudar para prova durante pausa do trabalho, responder email do trabalho enquanto faz lição — é pior para os dois. Cada contexto exige ativação cognitiva diferente. Troca de contexto tem custo.

Aceitar que um dos dois vai ser prioridade a cada semana. Semana de prova: estudo vem primeiro. Entrega importante no trabalho: o trabalho vem primeiro. Tentar equilibrar exatamente ao longo de toda semana cria estresse contínuo de nenhum dos dois estar recebendo atenção suficiente.

Identificar quais matérias toleravam ritmo reduzido. Algumas matérias podiam ser mantidas no mínimo suficiente. Outras eram críticas para o semestre e precisavam de atenção mesmo em semanas de trabalho pesado. Essa priorização explícita evitava o pânico de "estou atrasado em tudo".


O que tive que abrir mão:

Participação em atividades extracurriculares — eventos, hackathon, grupos de estudo. O tempo existia no papel; a energia não.

Estudar além do que o projeto imediato demandava. A exploração curiosa que havia caracterizado 2018 reduziu. Aprender ML sem aplicação imediata ficou mais difícil quando cada hora de estudo competia com obrigação concreta.

A qualidade do aprendizado caiu em relação a quando estudava em tempo integral. Isso não é falha — é tradeoff real.


O que eu ganhei que não esperava:

Contexto prático para o que estava estudando. Quando voltei a trabalhar, voltei com base teórica mais sólida do que tinha em 2016. Problemas de arquitetura que antes eram opacos tinham nome e modelo. Isso acelerou aprendizado prático de forma que não teria acontecido só estudando.

Os dois juntos não são iguais a cada um separado — são uma terceira coisa, com vantagens e custos diferentes.


Não existe solução ótima para trabalhar e estudar ao mesmo tempo. Existe o conjunto de tradeoffs que você está disposto a fazer, e os que você não está.

Clareza sobre os tradeoffs é melhor do que tentar escapar deles.

Essa semana: qual é o tradeoff que você está fazendo agora mas nunca nomeou explicitamente?