
O que eu diria para o dev de 2013 — e o que ele me diria de volta
Treze anos de carreira em tech — do suporte de Oi em Camaquã ao Staff Engineer em empresa global. Uma carta honesta para o início do caminho, e o que o dev de 2013 provavelmente questionaria sobre onde chegamos.
Em 2013, eu era técnico de suporte em uma empresa de telecomunicações, em uma cidade no sul do Brasil. Eu não sabia programar. Eu mal sabia o que era uma carreira em tech. Eu sabia que havia algo ali que me interessava — os servidores, os sistemas, o que acontecia por baixo da tela.
Treze anos depois, sou Staff Platform Engineer em uma empresa global de tecnologia. Se eu encontrasse o dev de 2013 — que ainda não era dev, era técnico de suporte — o que eu diria?
Diria que a curiosidade é o ativo mais duradouro. Não o conhecimento — o conhecimento envelhece. Não a tecnologia — as tecnologias mudam. A curiosidade genuína sobre como as coisas funcionam é o que mantém o aprendizado vivo durante décadas.
Em 2026, metade das coisas que eu precisaria saber para fazer meu trabalho não existiam quando você estava estudando. A outra metade estava em nenhum livro que você tinha acesso. O que te levou de lá para cá não foi dominar um conjunto fixo de conhecimento — foi continuar curioso quando o ambiente mudava.
Diria que o ambiente importa mais do que a escolha de tecnologia. Nos primeiros anos, a pergunta é "devo aprender Python ou Java, AWS ou Azure?". Essa pergunta importa, mas menos do que: em qual ambiente você consegue crescer? Qual time vai dar feedback real? Qual empresa tem problemas suficientemente interessantes para te ensinar algo?
Escolha tecnologia que tem tração. Mas, mais importante, escolha ambientes onde você vai errar com segurança e aprender com as consequências. Os erros de 2016, 2018, 2020 — eles ensinaram mais do que qualquer tutorial. Mas só ensinaram porque houve espaço para processar o erro, não esconder.
Diria que você vai subestimar consistentemente quanto tempo as coisas levam e superestimar consistentemente a diferença que uma única decisão faz. A carreira não é uma série de saltos — é uma acumulação. A diferença entre onde você vai estar em 5 anos e onde a maioria dos colegas vai estar não é uma decisão boa — são mil pequenas decisões de continuar aprendendo quando poderia parar.
E o que o dev de 2013 me diria de volta?
Ele perguntaria: você lembra porque começou? A curiosidade sobre como os sistemas funcionam, o prazer de resolver um problema com elegância, a satisfação de construir algo que não existia antes — isso ainda está lá?
Pergunta justa.
A resposta honesta é: às vezes sim, às vezes não. Em 2026, parte do trabalho é gestão de contexto, comunicação de trade-offs, navigação de processos organizacionais. Não é tudo código. Não é tudo construção. Há partes do trabalho que são pure overhead, e você precisa encontrar energia para as partes que importam.
Ele perguntaria também: você está construindo para as pessoas certas? Em 2013, construir significava resolver o problema do cliente que estava do outro lado do telefone. Era imediato, pessoal, específico. Em 2026, o cliente é um time de 50 engenheiros que usa a plataforma que você mantém, e o impacto é mais difuso.
A resposta que eu daria: o impacto é real, mas exige mais abstração para ser sentido. Você precisa cultivar a capacidade de se importar com o problema do usuário que você nunca vai conhecer pessoalmente. Isso é uma habilidade de empatia que precisa ser exercida ativamente quando a distância é maior.
Ele perguntaria uma última coisa: vale a pena?
E aqui eu não teria resposta simples. A carreira em tech tem privilégios reais — acesso a problemas interessantes, compensação que abre possibilidades, contexto de trabalho que pode ser intelectualmente estimulante. Mas tem custos reais também — de atenção, de energia cognitiva, de presença em outras dimensões da vida.
O que eu diria: é uma escolha que exige manutenção ativa. Não é uma trajetória que você escolhe uma vez e segue no piloto automático. Você precisa continuar escolhendo o que importa, com quem trabalha, por que você continua. E essa escolha ativa é o que mantém a carreira viva.
O café com dopamina existe para essa conversa. Para quem está começando e quer saber o que esperar. Para quem está no meio e precisa de perspectiva. Para quem chegou longe e ainda se pergunta por que.
Treze anos. Mais a vir.
Essa semana: Escreva uma carta para o dev que você era 5 anos atrás. Não sobre o que você sabe hoje que ele não sabia — sobre o que você veria diferente se pudesse revisitar aquele momento com os olhos de hoje. Essa carta é mais para você do que para ele.