Cover do episódio 114: Como eu saí do burnout — o que realmente funcionou
#1149 de dezembro, 20194 min leituraA Mente que ConstróiS4 · 2019–2020

Como eu saí do burnout — o que realmente funcionou

Não foi uma única coisa. Foi uma combinação de mudanças pequenas ao longo de meses. E algumas das coisas que eu achava que iam ajudar não ajudaram.

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Não existe fórmula. Isso é a coisa mais honesta que eu posso dizer sobre sair do burnout.

O que funcionou para mim pode não funcionar para você. O que não funcionou para mim pode ser exatamente o que você precisa. Mas posso compartilhar o que eu tentei, o que teve efeito e o que me surpreendeu por não ter.


O que não funcionou:

Tentar "usar o tempo livre para ser produtivo" não funcionou. Nos primeiros meses depois de pedir demissão, tentei transformar o espaço que abri em espaço de produção acelerada — estudar mais, fazer projetos, recuperar o "tempo perdido". Isso pressupõe que o problema era falta de tempo. O problema era falta de energia. Mais tempo sem mais energia só revela mais o problema.

Tentar "curtir" forçadamente não funcionou. A ideia de que descanso é fazer coisas prazerosas tem um limite quando você está esgotado. Às vezes eu tentava ler um livro que gostava e não conseguia absorver nada. A capacidade de se engajar em coisas prazerosas também fica comprometida no burnout.

Esperar que saísse sozinho não funcionou. Burnout se recupera com ação deliberada — não muita ação, não ação intensa, mas ação. Expectativa passiva de que ia melhorar com o tempo sem mudança alguma de comportamento não tinha base real.


O que funcionou:

Movimento físico regular. Não academia intensa nem corrida de alta performance — movimento moderado, consistente. Caminhadas diárias, pelo menos 30 minutos. O efeito não foi imediato mas foi acumulativo. Depois de algumas semanas, a qualidade do sono melhorou. Com sono melhor, a capacidade cognitiva começou a se recuperar.

Sono com consistência de horário. Não dormir mais — dormir nos mesmos horários. O sistema circadiano é regulador fundamental de disposição e capacidade cognitiva. Quando está desregulado, tudo fica mais difícil. Estabelecer horários fixos de dormir e acordar teve efeito perceptível em duas a três semanas.

Reduzir o consumo de notícias e redes sociais. Isso parece pequeno. Não é. Notícias e redes sociais são projetados para ativar resposta de alerta contínua. Quando seu sistema nervoso já está em sobrecarga, alimentar ele com mais input de alerta prolonga o problema. Reduzi o consumo drasticamente e o nível de ansiedade de fundo diminuiu.


A parte mais importante: conversar sobre o que estava acontecendo.

Eu não falava sobre burnout abertamente. Tecnologia ainda tem uma cultura de performance que torna difícil admitir que você está com dificuldade. Parece fraqueza. Parece que você vai ser visto como menos capaz, menos resiliente.

Conversar com pessoas de confiança sobre o que estava passando foi importante por dois motivos. Primeiro, nomear o problema externamente ajuda a processá-lo — há algo no ato de articular para outro que organiza o que está na sua cabeça de forma difusa. Segundo, descobri que não era o único que tinha passado por isso. Outras pessoas tinham histórias parecidas que nunca tinham contado.

A solidão do burnout é parcialmente construída pelo silêncio em torno dele.


Sobre o que foi mais difícil: a não-linearidade.

Você tem uma semana boa e pensa "estou melhorando". Depois tem três dias ruins e pensa "voltei à estaca zero". Não voltou. Recuperação não é linear — tem picos e vales, e a tendência geral é de melhora mesmo quando há dias difíceis no meio.

Aprendi a medir em semanas e meses, não em dias. "Como me senti essa semana comparado ao mês passado?" é uma pergunta mais útil do que "como me sinto hoje comparado a ontem?"


Levou meses. Não tenho um número exato porque não houve um dia de "agora estou curado". Houve um período, em retrospecto, em que eu percebi que as coisas que antes eram difíceis voltaram a ser normais. Que eu conseguia me concentrar de novo. Que o trabalho voltou a ter momentos de interesse genuíno. Que o vazio tinha se preenchido com algo mais parecido com presença.

Isso voltou. Não rápido, não de forma linear, mas voltou.


Essa semana: se você está em burnout ou suspeita que está, uma coisa concreta: durma e acorde no mesmo horário por sete dias seguidos. Só isso. Veja o que muda no nível de disposição e clareza mental. Se não mudar nada, pelo menos você eliminou uma variável.