Cover do episódio 27: Largar emprego estável, mudar de cidade e ir estudar
#02728 de novembro, 20164 min leituraCarreira na PráticaS1 · 2013–2016

Largar emprego estável, mudar de cidade e ir estudar

Depois de 3 anos na Oi, tomei uma decisão que não fazia sentido para muita gente: largar o emprego, mudar de cidade e ir fazer faculdade. O que me levou até ali.

CarreiraDecisãoMudançaTransição

Depois de três anos mantendo rede em empresa de telecom, eu tinha o que a maioria das pessoas chama de estabilidade.

Emprego com carteira assinada. Rotina conhecida. Habilidades que o mercado queria. Sabia configurar VPN, gerenciar GPO, manter servidor Linux de email funcionando. Não era sênior — mas era competente, e competência em IT support tem demanda constante.

E eu decidi largar tudo e ir estudar.


A decisão não foi impulsiva. Foi resultado de uma percepção que foi crescendo ao longo de meses.

O trabalho que eu fazia era manutenção. Importante, necessário, mas manutenção. Eu mantinha sistemas que outras pessoas tinham construído. Entendia como funcionavam o suficiente para mantê-los — mas não o suficiente para criá-los.

Isso começou a me incomodar.

Não porque manutenção seja trabalho menor. É trabalho essencial — aprendi isso e carrego até hoje. Mas porque eu percebia que o teto do que eu podia aprender naquele contexto estava mais próximo do que parecia quando entrei.


Tinha uma conversa recorrente com um colega mais velho que fazia parte do time de desenvolvimento interno da empresa. Ele construía as ferramentas que o time de suporte usava. Enquanto eu resolvia os problemas, ele construía os sistemas que ajudavam a resolver.

Não era inveja. Era clareza de onde eu queria estar.

A diferença não era só técnica — era de tipo de problema. Suporte resolve problema que já existe. Desenvolvimento antecipa problema que vai existir. Os dois são válidos. Mas o segundo era onde eu queria passar os próximos anos.


A decisão de ir estudar tinha um problema concreto: exigia mudar de cidade.

Ficar onde estava e fazer faculdade à distância era uma opção. Mas eu sabia o suficiente sobre aprender para saber que ambiente importa. Aprender junto com pessoas, em contexto de imersão, com projetos e professores e colegas que estão no mesmo ritmo — é diferente de fazer curso online após o expediente, cansado, sozinho.

Isso tinha custo. Largava o emprego. Mudava de cidade. Dependia dos meus pais para o aluguel enquanto a bolsa cobria o resto.


O que me convenceu foi inverter a pergunta.

Não "o que acontece se eu for?" — essa pergunta paralisa, porque os riscos aparecem todos de uma vez. Mas "o que acontece se eu não for?"

Se eu não for: continuo no mesmo lugar, com o mesmo teto, fazendo o mesmo tipo de trabalho. Em cinco anos estarei mais experiente em suporte mas não mais próximo de construir coisas. O custo de não ir era permanecer onde estava — e isso, percebi, era o pior cenário.

O custo de ir era desconforto temporário com upside indefinido.

Essa assimetria — downside reversível, upside aberto — é o critério que uso até hoje para avaliar apostas de carreira.


Não contei para muita gente antes de decidir. As perguntas que as pessoas fazem quando você fala que vai largar emprego estável para estudar têm a forma de dúvida mas o conteúdo de desincentivo.

"E se não der certo?" "Você já tem emprego bom." "Faculdade faz diferença mesmo?"

Não são perguntas ruins. São perguntas de quem projeta o próprio modelo de risco no que você está fazendo. Mas o risco que eles estavam calculando era diferente do risco que eu estava calculando.

Eles calculavam o custo de ir. Eu estava calculando o custo de ficar.


Mudei de cidade, comecei a faculdade, e o que veio depois não estava na lista de cenários que eu tinha projetado.

Isso é o que apostas com assimetria fazem: expandem o espaço de possibilidades além do que você consegue enxergar de onde está.

Essa semana: qual decisão você está adiando porque está calculando o custo de ir — mas nunca calculou o custo de ficar?