Cover do episódio 28: Primeira semana na faculdade depois de 3 anos trabalhando
#02827 de fevereiro, 20173 min leituraCarreira na PráticaS2 · 2017

Primeira semana na faculdade depois de 3 anos trabalhando

Voltei para sala de aula depois de 3 anos em produção. A sensação foi estranha — não porque foi difícil, mas porque foi diferente do que eu esperava.

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Na primeira aula de introdução à computação, o professor perguntou quem já tinha trabalhado com tecnologia.

Levantei a mão. Fui o único.

Ele perguntou o que eu fazia. Expliquei: suporte de TI, redes, servidores, field service. Ele acenou com a cabeça e seguiu em frente. A aula continuou com conceitos que eu já conhecia na prática há anos.

Essa foi a primeira semana.


Voltar para sala de aula depois de trabalhar é estranho de um jeito específico.

Quando você trabalha, você aprende pelo problema. Algo quebra, você precisa entender, você aprende. O feedback é imediato e o custo do erro é real. Quando você estuda, você aprende pela estrutura. Conteúdo programado, avaliação no final do mês, feedback com atraso.

Os dois têm valor. Mas são ritmos completamente diferentes — e mudar de um para o outro exige recalibrar como você mede progresso.

Na primeira semana, a sensação foi que nada estava acontecendo. Matérias que eu achava que ia aprender rápido porque "já sabia o assunto" — e matérias que eu achava fáceis porque conhecia o contexto prático.

O problema com essa sensação: ela estava parcialmente errada.


O que foi fácil de fato: contexto. Quando o professor falava sobre sistema operacional, eu não precisava imaginar o que era — eu tinha operado um. Quando falava sobre rede, eu tinha montado uma. Isso acelerava a assimilação de conceitos que os colegas levavam mais tempo para enraizar.

O que foi mais difícil do que eu esperava: formalização. Saber fazer e saber articular são habilidades diferentes. Eu sabia configurar VLAN — mas não sabia definir formalmente o que é segmentação de rede em termos de modelo OSI. Sabia que TCP era confiável e UDP não — mas não tinha o vocabulário de controle de fluxo, janela de congestionamento, retransmissão.

A faculdade não me ensinou o que fazer. Me ensinou o nome do que eu já fazia.


Tinha um colega que nunca tinha tocado em computador além de digitar texto. Ele chegava às aulas sem nenhum contexto prático — mas com uma curiosidade completamente desbloqueada. Ele perguntava coisas que eu nunca teria perguntado porque achava que "já sabia a resposta".

Em alguns momentos, ele aprendia mais rápido do que eu. Não por falta de experiência minha — mas porque experiência cria atalhos mentais que às vezes pulam etapas que precisavam ser entendidas.

Aprendi a prestar atenção quando ele perguntava. Frequentemente a pergunta dele era melhor do que a resposta que eu tinha.


O maior ajuste da primeira semana não foi intelectual. Foi de ritmo.

Trabalho tem urgência embutida. Algo está quebrado, alguém está esperando, o problema precisa ser resolvido agora. Faculdade tem urgência diferente — difusa, distribuída ao longo do semestre. A pressão existe, mas está longe o suficiente para parecer abstrata.

Aprendi a criar urgência artificial. Deadline da semana como se fosse SLA. Projeto como se fosse cliente esperando.

Essa semana: você tem algum aprendizado que você sabe fazer mas nunca formalizou? O que muda quando você tenta explicar para outra pessoa?