Cover do episódio 95: Meu primeiro dia numa software house — o choque
#09512 de agosto, 20194 min leituraCarreira na PráticaS4 · 2019–2020

Meu primeiro dia numa software house — o choque

Saí de uma telco com processo lento e entrei numa software house com múltiplos clientes, prazos curtos e tecnologia diferente toda semana. O choque foi real — e necessário.

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Telco grande para software house pequena é um choque.

Não porque um seja melhor que o outro. Porque são ambientes radicalmente diferentes, com ritmos diferentes, com o que é valorizado diferente, com o que é considerado "bom trabalho" diferente. E eu não estava preparado para a magnitude da diferença.


Na Oi, eu tinha anos de contexto. Sabia os sistemas, sabia as pessoas, sabia as regras não escritas. Tinha estabilidade — não a estabilidade de um ambiente seguro, mas a estabilidade de saber o que esperar.

Na POA Software, no primeiro dia, eu não sabia nada disso.

O primeiro choque foi o ritmo. Software house trabalha com múltiplos clientes ao mesmo tempo, com prazos muito mais curtos do que empresa grande. O que numa telco levava meses de planejamento e aprovação, numa software house precisava estar rodando em semanas. Às vezes em dias.

Minha primeira semana, eu fui apresentado a dois projetos ativos e um novo cliente que estava chegando. Cada um com stack diferente. Cada um com contexto diferente. Eu precisava entrar em cada um com velocidade, e eu vinha de um ambiente onde a velocidade de onboarding não era uma prioridade.


O segundo choque foi a tecnologia. Na telco, você usa o que a empresa usa. Stack é definido, ferramentas são aprovadas, você se aprofunda naquilo. Na software house, a tecnologia muda com o cliente. Um cliente quer PHP. Outro quer Node. Outro tem uma aplicação legada em Python 2 que ninguém mais mantém e você precisa entender rápido.

Breadth em vez de depth. Em empresa grande, você vai fundo em poucas coisas. Em software house, você vai largo em muitas coisas.

Nenhum dos dois é superior — são trade-offs diferentes. Mas meu modo de aprendizado estava calibrado para depth, e o ambiente exigia breadth. Tive que recalibrar.


O terceiro choque foi mais sutil: a proximidade com o cliente.

Em empresa grande, o cliente é abstrato. Você implementa o que o produto manager pediu que foi aprovado em reuniões que você não participou baseado em feedback que chegou filtrado por três camadas. Você raramente tem contato direto com quem vai usar o que você constrói.

Em software house, o cliente está no Slack. Às vezes numa reunião de quinta de manhã. Às vezes mandando mensagem às 18h pedindo uma mudança para amanhã. A distância entre "o que o cliente quer" e "o que você faz" é quase zero.

Isso é assustador no começo porque você está exposto. Mas é valioso porque você aprende como o que você faz afeta alguém real.


Lembro do primeiro bug que identifiquei em produção no novo emprego. Em empresa grande, havia processo: abre ticket, categoriza, vai para a fila, alguém prioriza, você recebe a tarefa, resolve, passa por review, vai para staging, sobe em janela de manutenção.

Na software house: "tem bug, resolve e sobe hoje à tarde."

Primeiro instinto foi entrar em pânico. Segundo instinto foi resolver o bug. O bug foi resolvido, subiu, funcionou.

Processo é útil em escala. Em escala menor, processo vira burocracia. O ambiente menor me ensinou a confiar mais no meu julgamento e menos no protocolo — o que foi, descobri depois, exatamente o que eu precisava aprender.


Sobre o estado em que eu cheguei: ainda estava em processo de recuperação do burnout. O ambiente novo ajudou — novidade e variedade são estimulantes. Mas também foi cansativo, porque eu precisava de energia para adaptar e minha reserva de energia ainda estava recarregando.

Não recomendo fazer uma transição grande de emprego enquanto ainda está em burnout, se você tiver escolha. Eu não tinha a opção de esperar mais — precisava de renda, precisava sair do ambiente anterior. Mas é útil saber que o custo de adaptar é maior quando você está com recurso reduzido.


Essa semana: você está num ambiente de depth ou breadth agora? Qual desses modos de aprendizado você tem mais treino? O que aconteceria se você passasse um mês deliberadamente praticando o oposto?