
O que mudou em mim como dev depois do burnout
Burnout muda você. Não só como pessoa — como profissional. Algumas mudanças foram perdas. A maioria foi ganho.
Você sai do burnout diferente do que entrou.
Isso é óbvio, mas as implicações não são. Há coisas que você perde. Há coisas que você ganha. E há coisas que mudam de forma que você só percebe olhando para trás, quando a distância é grande o suficiente para ver o contraste.
Em fevereiro de 2020, estava há meses fora do pior período. E conseguia começar a mapear o que tinha mudado.
O que eu perdi:
Perdi parte da disposição de trabalhar até tarde sem questionar por quê. Antes do burnout, eu ficava horas além do horário sem muito questionamento — era normal, era compromisso, era o que desenvolvedores faziam. Depois, comecei a perguntar "para quê?" de forma mais explícita antes de comprometer tempo extra.
Isso não é preguiça. É uma calibração diferente de custo-benefício. Seu tempo e energia são finitos e têm custo. Comprometê-los sem analisar o retorno é uma equação que o burnout me forçou a reaprender.
Perdi parte da tolerância para trabalhar em projetos sem direção clara. Ambiente de ambiguidade constante me desgastava mais do que antes. Passei a valorizar mais clareza de objetivo — não certeza de resultado, mas clareza de para onde estávamos indo.
O que eu ganhei:
Ganhei capacidade de colocar limites. Não de forma agressiva — de forma pragmática. "Vou trabalhar até às 19h nessa sprint porque depois disso minha capacidade de produzir cai e o trabalho adicional não vai ter qualidade." Isso não é fraqueza. É conhecimento sobre como você funciona aplicado à sua agenda de trabalho.
Ganhei consciência dos meus sinais de alerta. Depois de passar por burnout, você aprende a reconhecer os sinais mais cedo. Aquele cansaço que não passa depois do fim de semana. Aquela irritabilidade com coisas pequenas. Aquela sensação de que as coisas estão pesando mais do que deveriam. Agora eu sei o que esses sinais significam, e ajo sobre eles antes de chegarem a um ponto crítico.
Ganhei curiosidade mais seletiva. Antes, tentava acompanhar tudo — todas as tecnologias novas, todos os artigos, todos os frameworks. Era FOMO codificado como hábito. Depois do burnout, aprendi que atenção é recurso escasso e que escolher no que me aprofundar é mais valioso do que tentar tocar tudo superficialmente.
Teve uma mudança específica na forma como eu trabalho código:
Comecei a valorizar muito mais simplicidade e clareza no que eu escrevia. Não por princípio estético — por consequência prática. Código complicado para você entender é código que vai custar energia toda vez que você precisar mexer nele. E energia, aprendi da forma difícil, não é renovável de forma ilimitada.
Soluções simples são mais sustentáveis do que soluções sofisticadas. Não porque sofisticação seja ruim — mas porque você vai ter que manter aquilo, e você nem sempre vai estar no seu melhor para fazer isso.
Teve também uma mudança na relação com velocidade.
Em empresa grande, a narrativa é de velocidade constante — entrega rápida, iteração rápida, velocidade como virtude primária. Eu tinha internalizado isso.
Depois do burnout, percebi que velocidade sustentável é mais valiosa do que velocidade máxima por período curto seguida de colapso. Um dev que entrega consistentemente em ritmo moderado por dois anos entrega mais do que um dev que vai a full speed por seis meses e depois fica três meses se recuperando.
Sustentabilidade é performance de longo prazo.
A coisa mais inesperada que mudou: eu me tornei mais útil para pessoas ao redor que estavam passando por dificuldades parecidas. Não porque eu tenha virado especialista em saúde mental — porque eu tinha vocabulário para nomear o que estava acontecendo com elas. E às vezes o que uma pessoa precisa é simplesmente alguém que reconhece o que está vendo e não minimiza.
Essa semana: existe alguma coisa no seu modo de trabalhar que você mantém por inércia — uma forma de operar que adotou há anos e nunca questionou — que pode estar custando mais do que vale? Não para eliminar tudo, mas para examinar uma coisa com olhar fresco.