Cover do episódio 166: Minha primeira semana trabalhando 100% em inglês
#16610 de março, 20233 min leituraDentro da Empresa GlobalS7 · 2023–2024

Minha primeira semana trabalhando 100% em inglês

Eu sabia inglês. Mas trabalhar em inglês é diferente de saber inglês. Aqui está o que ninguém te conta sobre essa transição.

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Na segunda-feira da minha primeira semana, eu entrei numa reunião de onboarding com oito pessoas de quatro países diferentes. Todos falando inglês. Eu entendia tudo que estava sendo dito. Mas quando chegou minha vez de me apresentar, travei por três segundos inteiros antes de começar.

Não porque não sabia o que dizer. Mas porque nunca havia feito aquilo em inglês com consequências reais.


Existe uma diferença enorme entre saber inglês e trabalhar em inglês. Saber inglês significa que você consegue assistir série sem legenda, ler documentação técnica, fazer cursos. Trabalhar em inglês significa que você precisa comunicar ideias complexas, incertas e às vezes controversas, em tempo real, para pessoas que dependem do que você está dizendo.

A primeira semana foi um exercício contínuo de desconforto produtivo.


O maior desafio não foi o vocabulário — foi a velocidade. Quando eu penso em português, tenho acesso imediato às palavras certas. Em inglês, especialmente nos primeiros dias, havia um delay entre o pensamento e a expressão. Durante esse delay, a conversa continua. Você começa a responder uma pergunta que já foi superada pela próxima.

Minha solução foi aprender a dizer "let me think for a second" sem constrangimento. Em inglês isso é completamente normal — ninguém acha estranho quando você pede um momento para organizar o raciocínio. Esse pequeno gesto me deu espaço para processar e respondia de forma mais clara.


A escrita foi mais fácil do que o verbal. Eu podia revisar, reformular, verificar. Fui rapidamente percebendo que a maior parte da comunicação numa empresa distribuída globalmente acontece de forma assíncrona — Slack, documentos, tickets, PRs. Isso me deu tempo de respirar nos primeiros dias.

Mas o verbal importa. Stand-ups, reuniões de design, retrospectivas, conversas ad-hoc no Slack huddle. Esses são os momentos onde você constrói relacionamento e onde sua voz — literalmente — começa a existir para o time.


Uma coisa que eu não esperava: as expressões idiomáticas. A empresa tinha dezenas delas. "Let's park that", "double-click on this", "boil the ocean", "move the needle". Inglês técnico de documentação é diferente de inglês de trabalho americano. Aprendi mais sobre comunicação profissional americana nas primeiras semanas do que em anos de curso de inglês.

Minha estratégia foi observar antes de usar. Quando eu via uma expressão que não conhecia, anotava. Quando o contexto estava claro, eu usava na conversa seguinte. Isso acelerou a curva.


No final da primeira semana, eu tinha participado de onze reuniões em inglês, escrito pelo menos quarenta mensagens de Slack substantivas e revisado dois documentos técnicos. Estava cansado de uma forma diferente do normal — não cansaço físico, mas cansaço cognitivo de processar tudo em segundo idioma.

Isso passa. Na terceira semana eu já não estava tão cansado assim. Na segunda semana, já estava fazendo piadas (ruins, mas piadas).


O que mais me ajudou na transição não foi técnica linguística. Foi a aceitação de que eu ia errar, soar estrando, usar a palavra errada às vezes — e que isso era completamente normal e esperado. Ninguém no time estava avaliando meu inglês. Estavam avaliando minhas ideias.

Quando eu parei de tentar soar nativo e comecei a focar em comunicar claramente, tudo ficou mais fácil.


Essa semana: se você está pensando em carreira internacional, escreve um documento técnico curto em inglês — pode ser a explicação de uma decisão que você tomou no trabalho recentemente. Compartilha com alguém que trabalha em inglês e pede feedback. O objetivo não é perfeição — é começar a criar o hábito de pensar e comunicar em inglês sobre o trabalho que você já faz.