Cover do episódio 164: Como foi o processo seletivo para trabalhar numa empresa americana — e o que me surpreendeu
#16415 de janeiro, 20234 min leituraCarreira na PráticaS7 · 2023–2024

Como foi o processo seletivo para trabalhar numa empresa americana — e o que me surpreendeu

Depois de anos construindo fundação técnica, eu finalmente tentei uma vaga internacional. Aqui está o que ninguém conta sobre como esse processo realmente funciona.

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Eu enviei minha candidatura às 23h47 de uma quarta-feira. Fechei o laptop e fui dormir achando que provavelmente não ia receber resposta.

Recebi em dois dias.


Antes de contar como foi o processo, preciso contextualizar onde eu estava. Tinha passado dois anos construindo base técnica de verdade — infraestrutura, containers, Terraform, observabilidade. Estava me sentindo engenheiro de uma forma que não me sentia antes. Mas ainda havia uma separação clara na minha cabeça entre "devs brasileiros" e "empresas americanas". Como se fossem mundos diferentes, habitados por pessoas diferentes.

O processo seletivo me provou que essa separação era construída na minha cabeça.


A primeira etapa foi uma triagem por vídeo assíncrona. Você grava respostas para perguntas no seu tempo — sem entrevistador do outro lado, sem reação em tempo real. Isso foi mais estranho do que difícil. Eu gravei, regravei, gravei de novo. Acabei enviando a terceira versão de cada resposta — não porque as anteriores eram ruins, mas porque eu havia esquecido de respirar.

A segunda etapa foi uma conversa com um recruiter. Durou 45 minutos. Ela me perguntou sobre minha experiência, sobre o que eu queria construir, sobre por que eu estava procurando uma mudança. Eu respondi em inglês durante 45 minutos inteiros. No final, percebi que havia feito isso sem perceber quando foi que parei de traduzir mentalmente.

A terceira etapa foi técnica: um sistema design e uma conversa sobre experiências passadas com o time de engenharia. Aqui a coisa ficou real. Você está falando com engenheiros que trabalham no nível que você quer alcançar. Eles fazem perguntas abertas. Não há resposta única certa — eles querem entender como você pensa.


O que me surpreendeu não foi a dificuldade técnica. Foi a qualidade da conversa.

Em processos seletivos brasileiros que eu havia passado, a tendência era ir para o técnico rápido — "me explica esse algoritmo", "escreve essa função", "o que é SOLID". No processo para a empresa americana, a conversa técnica foi mais sobre decisões de trade-off. "Por que você escolheu essa abordagem?", "O que você teria feito diferente sabendo o que sabe hoje?", "Como você garantiria que isso funciona quando o tráfego aumenta 10x?"

Eles não queriam saber se eu sabia a resposta certa. Queriam entender se eu pensava de forma estruturada sobre problemas complexos.


Outra coisa que me surpreendeu: a transparência sobre o processo. Cada etapa era comunicada claramente. Eu sabia o que esperar antes de cada conversa. No final de cada etapa, recebia feedback — não genérico, mas específico. "Você foi bem em system design, especialmente na parte de escalabilidade. Para o próximo round, esteja preparado para falar mais sobre como você liderou projetos com ambiguidade alta."

Nunca havia recebido feedback assim num processo seletivo.


O que me preparou para isso não foi nenhum curso de inglês específico ou nenhum bootcamp de entrevistas. Foi anos de fazer trabalho real e ser capaz de articular o que eu aprendi com ele. A entrevista é uma conversa sobre o que você construiu e como você pensa — e isso só existe se você construiu coisas de verdade e pensou sobre elas de verdade.

O inglês importa, mas menos do que parece. Pronúncia perfeita não é requisito. O que importa é conseguir comunicar raciocínio complexo de forma clara. Isso é treinável — e muito mais rápido do que parece quando você tem conteúdo real para comunicar.


Essa semana: pega uma decisão técnica que você tomou nos últimos seis meses e tenta escrever, em inglês, por que você a tomou, quais eram as alternativas e o que você aprendeu. Esse exercício prepara para entrevistas mais do que qualquer mock interview — porque o conteúdo é real.